30 minutos num afluente do Côa.

30 minutos num afluente do Côa.



Principios de Maio de 2009. Mais uma vez na zona raiana, decidi atacar a zona do Alto Côa. Já há mais de 5 anos que não visitava o troço a montante do viveiro de trutas nos Quadrazais, e portanto tinha chegado a altura de matar saudades. De facto, a minha primeira pescaria de sempre no Côa tinha sido realizada neste troço, no principio dos anos 90. A minha curiosidade pelo Côa surgiu, depois de ter escutado numa loja de pesca do Porto que para “tirar as trutas do Côa só de camaroeiro”. Perante esta conversa, claramente de quem sabia do assunto, havia que investigar. E meu dito meu feito, nesse dia tiraram-se (eu e o meu irmão) 5 ou 6 boas trutas e pelo menos duas tiveram que levar camaroeiro. Havia que voltar ao lugar do crime!

Cheguei ao local às 7h30 e parei logo na primeira curva a montante da ponte de acesso ao viveiro. Nenhum pescador à vista e o rio com um caudal razoável, atendendo ao mês que estavamos a atravessar. Decidi-me por pescar com uma combinação colher/rapala. Colher nas correntes pouco profundas e rapala nas correntes fundas e nos poços. Entrei junto à ponte de acesso ao viveiro e toca a pescar para montante. Com o dia pouco nublado e uma temperatura agradável, estavam reunidas boas condições para realizar uma pescaria normal, até porque já se viam algumas trutas a mosquear no rio. Engano meu! Após 1h30 de pesca, vi uma boa truta numa corrente atrás da amostra, tirei duas trutas sem medida e mais nada. Parecia que o rio estava sem trutas. Com este paronama, cheguei a uma ponte do Côa construída para permitir acesso a um caminho municipal. Vejo um individuo com uma camâra de filmar em cima da ponte e outro a pescar à mosca seca debaixo da ponte. Olho para o lado esquerdo (margem direita) e vejo 4 carros todos com matriculas espanholas e mais 7 pescadores a preparar o material para a mosca.  

Bem, comecei a ver a vida a andar para trás! Resolvi deixar os artistas para trás, passei despercebido e avancei uns 500 metros para testar umas correntes que conhecia. Mas trutas nem vê-las! Entretanto, os espanhois lá vieram direitos a mim. Pronto, vamos lá à conversa! Lá me explicaram que estavam ali a filmar para o Jara y Sedal em Espanha e que na semana passada tinham tirado algumas boas trutas naquele sitio à mosca. No dia em questão, já tinham tentado as trutas com várias abordagens (seca, ninfa afogada, etc), mas nada. Também pudera! As trutinhas já estavam escaldadas! É que nem mexiam atrás do isco. Acabada a conversa, resolvi imediatamente por-me andar para não andar a coar água. Eram 11 horas e os Espanhóis tinham feito um bom serviço na semana anterior!

Voltei para o carro e toca a olhar para o mapa. Aonde é que eu ia desencantar umas trutitas? Tinha que ser num lugar manhoso! Eu já tinha ouvido falar nos famosos afuentes do Côa (ribeira de Alfaiates, ribeira da Aldeia da Ponte, etc.) mas nunca lá tinha pescado, nem sabia do potencial dos mesmos. Enfim, na dúvida, resolvi atacar mais um troço do Côa entre o Sabugal e a Rapoula! Péssima escolha! Cheguei ao local passado 20 minutos de viagem de carro e vejo logo dois jipes com matricula espanhola parados na margem do rio. Claramente pescadores e pelo aspecto das pegadas na margem já tinham arrancado há muito. Nem tirei a cana do carro. Volto a olhar para o mapa e começo a medir os afluentes do Côa. Tinha que ser um dos que não estavam concessionados. Perdido por 100, perdido por 1000! Escolhi um afluente da margem esquerda para atacar ao light spinning. A ideia era pescar para montante, desde a confluência com o Côa.

Cheguei ao local às 13h30. Aparelhei-me com cana de metro, carreto com fio 0,12 e mepps aglia nº1. O afluente não tinha muita água, estava ladeado por margens altas e tinha muitos salgueiros nas margens. Apresentava alguns poços de água escura com alguns limos, que eram bastante tentadores. A pesca antevia-se dificil, devido à grande exposição do pescador relativamente à água e à dificuldade dos lançamentos que tinham que ser medidos ao milimetro. Olhando ao aspecto do ribeiro, era pesca para 30 minutos no máximo.

Os primeiros lançamentos não produziram qualquer toque, nem vi qualquer truta. Fui avançando até que cheguei a uma zona com várias raizes de salgueiros dentro de água. Zona extremamente dificil para arrancar boas trutas, caso piquem. Primeiro lançamento, entra um truta de 26 cm com uma força incrivel. Dois saltos fora de água, tenta fugir para as raízes e ponho pressão na linha ao máximo. Consigo controlar e arrasto-a para a margem. Esta já cá estava! Segundo lançamento mais para montante, entra outra com cerca de 30 cm. O mesmo tipo de luta, o mesmo tipo de trabalho da minha parte e consigo pô-la em terra firme. Entretanto, avanço mais um pouco e encontro um cotovelo do ribeiro com um pequeno poço e ladeado por raízes de salgueiros dentro e fora de água. Primeiro lançamento para montante, nada! Segundo lançamento, vejo mexer um bicho grande! Terceiro, entra uma truta de 40 com uma força terrível. Durante 2 minutos, faz-me a vida negra tentando dar a volta às raízes com o fio. A muito custo, lá a consegui cansar e lentamente arrastei-a para perto de mim. Quando já estava a menos de 1 metro de mim, encosta a uma raíz que estava fora de água, dá um safanão com a cabeça e lá vai amostra e truta! O fio cedeu! Fiquei cego, a cana voou para os arbustos, mas pouco podia fazer. Meti uma nova colher e avancei mais alguns metros para montante. A água começava a rarear e os poços também. Portanto,estava a começar a zona de alevins (zona de desova das trutas). Ali já não valia a pena. Fiz mais dois ou três lançamentos e ainda tirei mais uma trutita de 22 cm. Fiquei satisfeito e resolvi deixar mais trutas para outro dia.

No global, foram 30 minutos de pesca que valeram por todo o dia de pesca em termos de emoções vividas. Fiquei a saber que os afluentes do Côa são realmente uma mais valia importante para os pescadores de trutas e podem proporcionar grandes alegrias. Também fiquei a saber que passamos a ter concorrência feroz de “nuestros hermanos” nos rios da raia, pois muitos deles não brincam em serviço. É o sinal dos tempos, só espero é que os nossos serviços de fiscalização e de repovoamento respondam de forma conveniente a estas solicitações. O Côa merece toda a nossa atenção e respeito.

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.