Trutas de Páscoa no Rio Côa.

Trutas de Páscoa no Rio Côa.


Sábado de Páscoa, dia 3 de Abril de 2010. Tendo-me deslocado no dia anterior para Figueira de Castelo Rodrigo, de modo a passar a Páscoa em familia, fui logo pensando em realizar uma jornada de pesca às trutas. Depois do desaire da última visita (há cerca de duas semanas), as minhas esperanças estavam em baixo e portanto resolvi planear a minha investida com alguma moderação. Ainda pensei em comprar a licença para ir à concessão de pesca desportiva dos Quadrazais, mas como já era Sábado de Páscoa, de certeza que os lotes já tinham sido bem batidos nos dias anteriores e por gente conhecedora do ofício :).

Perante este cenário e sem conhecimento dos níveis de débito da Barragem do Sabugal, resolvi adoptar um plano de pesca mais despreocupado. Acordei lá para as 8h30, fiz-me à estrada, passei por Fuentes de Oñoro, enchi o tanque de combustível, comprei uns chocolatitos no Gildo e rápidamente cheguei às 10 horas da manhã. Estava na hora das decisões!

Sem pensar muito resolvi entrar num troço a jusante da Rapoula do Côa. Não valia a pena fazer muita estrada e queria pescar sem muita companhia, logo escolhi um daqueles lugares pouco frequentados. Daqueles que ninguém quer!!

Cheguei eram 10h30. Estacionei o carro perto de um açude. O tempo estava instável, muito nublado, frio e algum chuvisco aqui e ali. Deixei a capa da chuva no carro e meti á pressa o camaroeiro na parte de trás do colete de pesca. O rio corria a níveis aceitáveis, o que significava que a Barragem do Sabugal estava com um débito moderado. Pus-me a pensar na amostra a utilizar. Rapala, Salmo?? Nada disso. Com a corrente em baixo, decidi entrar ao light spinning.  Cana de 1,8 metros, linha 0,12 da Fendreel e Mepps Aglia TW nº 1. Queria pelo menos ver alguma truta por mais pequena que fosse. Já tinha saudades das trutas do Côa!

Entrei ao primeiro açude. Fiz vários lançamentos, mas nada. Entretanto começam a entrar uns aguaceiros fortes e geladinhos. E eu que deixei a capa no carro! Volto para trás ou aguento-me à bronca? Lá me aguentei. O dia estava a começar a correr mal. Com a chuva, os primeiros lançamentos sairam em zona de pouca profundidade e fundo de areia, mas nem sinal de trutas.

À medida que fui avançando para montante a chuva foi parando, mas o céu mantinha-se bastante negro. Os lançamentos sucediam-se e eu fui começando a chegar a uma área de corrente com pouca profundidade, areia no fundo e algas bem espalhadas pelo centro do rio.  Parte desta corrente era mantida pela saída de um afluente na margem direita do rio. Fui batendo a área com cuidado e cheguei a 50 metros da saída do afluente (foto abaixo).

Realizo o primeiro lançamento para montante e nada. Realizo o segundo lançamento a cruzar na perpendicular para a outra margem e nada. Realizo o terceiro lançamento a 1/4 para jusante e começo a recuperar. A colher faz os primeiros 5 metros e sinto um leve toque na corrente. Vejo a truta a mexer-se a uns 30 metros de distância. Não tinha ficado! Afrouxo a recuperação e vejo a sombra negra a seguir o isco. Passado 10 metros, entra com força total mesmo ao centro do rio. A cana verga de forma violenta, o carreto começa a chiar. Temos troféu! Com uma força imensa, a truta começa a cabecear e a enrolar-se à volta do fio. Sabendo que tinha um 0,12 já usado nas mãos, apliquei o mínimo de força possivel e abri um pouco mais o travão do carreto. Havia que deixá-la fazer todo o trabalho com calma. Ela enrolava-se tipo jiboia e quando já estava cansada, eu desenrolava-a lentamente. Mal se via puxada outra vez, dava várias cabeçadas fortes e voltava a enrolar-se, tentando aproveitar as algas do fundo do rio. Andamos nisto durante 5 minutos. Esta estratégia visava cansá-la para evitar rupturas de fio de última hora, especialmente quando ela já estivesse perto da margem.

Entretanto, meto a mão para trás para pegar no camaroeiro e não o consigo tirar! Tinha ficado preso no fecho do colete. Bonito serviço! Com a truta nas mãos, não havia tempo para andar a resolver esse assunto. Ia ter que a arrastar para a margem e deitar-lhe a mão. A truta lá fez mais duas arrancadas para montante, enrolou-se outra vez no fio e começou a andar mais de lado. Levantei-lhe a cabeça para fora de água e fui começando a puxá-la para a margem. Com calma, encostei-a à areia e agarrei-a de forma segura.

Que lindo troféu e que grande combate! Reparem nas tonalidades e nos recortes na parte lateral! Que bela truta de 49 cm. E com 0,12! Assim, sim!

Animado por esta captura, continuei a insistir no mesmo sitio. Fiz vários lançamentos, mas não mexeu mais nenhuma truta. Pelos vistos era exemplar único. Entretanto, o 0,12 da Fendreel foi rareando no meu carreto (fiz vários cortes) e aproveitei para o substituir com um fio do mesmo diâmetro da Asari. Com esta brincadeira, demorei 15 minutos e resolvi avançar mais para montante.

Para continuar a pescar, tinha que atravessar o afluente do Côa. Como o afluente tinha alguma água, não me pareceu má ideia tentar a minha sorte neste pequeno ribeiro durante 100 metros. Assim, quando cheguei à ponte que atravessa o afluente, resolvi fazer lançamentos para jusante e montante. Nos lançamentos para jusante nada mexeu. Para montante, resolvi passar a ponte para a outra margem. O local estava bem coberto por árvores e pela presença de um muro, e nalguns pontos apresentava entre 1 a 2 metros de profundidade (foto abaixo).

Ainda sobre a ponte, realizo o primeiro lançamento para montante. Nada mexe. O segundo lançamento é realizado a 2/4 para montante e a tocar na outra margem. Faz os primeiros 5 metros e entra um boa truta. Começa a cabecear e arranca para montante. Perante isto, corro para o centro da ponte para evitar que o fio se prenda nas árvores da margem. Entretanto, a truta começa a cabecer e a nadar lentamente para jusante em direcção à ponte. Os pilares da ponte estavam cheios de lenha e eu comecei a ver a vida andar para trás. A truta chega quase aos meus pés, abro o carreto e deixo-a correr livremente. Perante isto, ela arranca novamente para montante, não antes de passar o fio por um ramo morto encostado ao pilar da ponte. Continuo a deixar o fio correr e vejo que a truta estabiliza a cerca de 20 metros de mim. Fecho o carreto e mantendo a truta debaixo de olho, lá consigo desembaraçar o fio. Perante isto, saio do centro da ponte, corro para a margem e começo a puxar a truta para um pequeno areal ao meus pés. Tiro o camaroeiro para fora (desta vez saiu) e vou controlando a truta para evitar que a mesma se escape com força para montante ou jusante. Com calma, consigo metê-la no camaroeiro. Já estava! Num combate épico, capturei esta beleza de 39 cm (foto abaixo).

Perante a segunda captura, o dia já estava ganho a todos os níveis. Ainda fiz 100 metros de ribeiro, mas não visualizei nenhuma truta. Portanto, resolvi voltar ao Côa. Entre algumas dúvidas existenciais (pois já estava bastante satisfeito), resolvi continuar a pescar para montante, sobretudo com intuito de conhecer um troço de rio no qual ainda não tinha pescado. Á medida que fui avançando, notei que as condições de pesca eram cada vez mais dificeis. Muros altos nas margens e muitas árvores, impediam que os lançamentos cobrissem todas as áreas mais produtivas. De qualquer forma, a pesca foi prosseguindo com calma e durante duas horas não houve novidades. Entrei em duas boas correntes profundas com poços a jusante, mas nem uma truta vi.

Por volta das 15 horas, chego a uma corrente profunda junto a um moinho de água abandonado. Na margem oposta, entrava um pequeno rego de água. O local estava cheio de lenha morta e era de dificil acesso. Não se vislumbravam pegadas na margem. Resolvi entrar. Realizo o primeiro lançamento no sentido da pequena entrada de água, a colher anda 2 metros e vejo um brilho metálico a arrancar do fundo e a puxar a amostra para baixo. Outra grande truta! Estava traçado o cenário para outro grande combate. Margem alta, árvores e ramos a circundar-me dos dois lados, corrente razoável no rio e 0,12 de linha. Entre cabeçadas e enrolamentos de linha passaram 5 minutos. A truta foi nadando mais para montante do que para jusante, tentando encostar-se à lenha morta. Foi o que me safou! Se tivesse lutado a favor da corrente, possivelmente o 0,12 não iria aguentar. 

Quando a truta já estava mais cansada, saquei de camaroeiro, mas tive várias dificuldades para vencer a margem inclinada e conseguir pôr a truta a jeito. Só depois da 5ª tentativa é que consegui. Mais uma truta espectacular de 45 cm. Que grande exemplar com umas bonitas e grandes pintas negras!

Com esta terceira captura, o cesto estava cheio e o peso já fazia mossa nas costas. Ainda andei mais uma horita para matar a última ganância de pescador, mas a motivação já era fraca, porque estava bastante satisfeito. Fui encontrando pegadas na margem e quando cheguei às proximidades de uma povoação, resolvi dar a pescaria por terminada. Já tinha mais do que a minha conta!

O que mais poderei dizer depois de tudo isto? Nada! A sequência de imagens fala por si. Tive três toques, tirei três trutas! Não vi nenhuma truta pequena. O Côa confirmou a sua tradição de rio de elite no que toca à pesca às trutas e sobretudo ao nível da produção de excelentes troféus. Esta foi uma jornada fantástica às trutas do Côa! A primeira digna do seu nome em 2010 e daquelas que ficam para sempre na memória de um verdadeiro pescador 🙂

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.