De volta à Ribeira de Gondiães …

De volta à Ribeira de Gondiães …


Domingo, dia 4 de Julho de 2010. Respondendo a um convite do Sr. Eng. Mendonça, estava na altura de voltar à zona de Gondiães para uma breve pescaria às trutas e para um excelente convivio gastronómico com algumas das personagens mais carismáticas da zona. Da zona do Porto e da Maia, juntou-se um grupo de notáveis para responder à solicitação, incluindo empresários, engenheiros, médicos, bancários e professores universitários. A beleza do local, a pureza das águas, a bravura das trutas indígenas, a simpatia dos locais e a excelente gastronomia da zona eram chamarizes muito fortes para resistir! Como tal, marcou-se encontro com as individualidades da zona, às 7 horas da manhã na saída da Auto-Estrada para Ribeira de Pena. Dali, e após breve conferência com um dos maiores pescadores de trutas da zona do Alvão (Sr. Torres Pereira), iriamos avançar em conjunto para a praia de Gondiães.

Às 7h30 estavam reunidos 11 pescadores para começar a aventura. Depois do encontro, mudei de carro e troquei a companhia dos ilustres Arlindo Cunha e manos Pintalhão, que me trouxeram do Porto, pela experiência do Sr. Torres Pereira. Havia que definir a estratégia para pescar na zona de Gondiães e eu queria sondar como estavam os rios e também queria ouvir na primeira pessoa as últimas façanhas do Sr. Torres Pereira. E não fiquei desiludido 🙂 Rápidamente, ele começou a abrir o livro de pescarias (algumas com mais de 30 trutas num dia) e de alguns troféus, o maior na ordem kilo e pouco. Claramente um homem experiente nestas andanças e que só entra ao rio “quando elas querem”. Entretanto, fui abordando também as opções para o dia. Com o céu claro e algum calor na zona, as condições não eram as melhores. Ainda propus entrar à zona mais alta do Beça, tentando aproveitar a sua forte cobertura vegetal e apostando no facto de as trutas poderem estar activas atrás dos insectos. No entanto, segundo o nosso homem, o melhor era tentar pescar na Ribeira de Gondiães para montante da confluência com o rio Beça até chegar à praia de Gondiães. Ao que parece, da última vez que por lá tinha andado, o Sr. Torres Pereira tinha visualizado uma boa densidade de trutas, das quais conseguiu apenas tirar 10 boas trutas, com uma a pesar 700 gramas. O troço não era fácil de andar, devido à densa vegetação e à inclinação das suas margens em poços muito especificos … portanto, desde logo sinal de que pouca gente teria já visitado o local.

Sem hesitar, resolvi seguir o conselho e aceitei o desafio. Com o rumo traçado, resolvemos realizar uma pequena paragem para tomar o pequeno almoço e dividir os pescadores pelas diferentes viaturas. No carro do Sr. Torres Pereira, fiquei eu (destino – Ribeira de Gondiães), Prof. Arlindo Cunha (Ribeiro de Covas) e Eng. José Pintalhão (Ribeiro de Covas). Eu iria ser o primeiro a ser deixado na confluência da Ribeira com o Beça. Para tal tivemos que percorrer um estradão de terra batida durante alguns Kms, estradão esse que estava previsto dar acesso à zona de construção da famosa Barragem de Padroselos, chumbada recentemente pelo Ministério do Ambiente.

Cheguei ao local eram 9h30, equipei-me com o material de light spinning e preparei-me para a sessão de pesca a solo. A ribeira apresentava um caudal médio e portanto haviam condições para pelo menos por algumas trutas a mexer. Resolvi focalizar a minha atenção nos poços e correntes mais profundas. Vi de imediato algumas trutas a mosquear de forma mais intensa e reparei que algumas estavam em actividade, mesmo em correntes sem grande profundidade. Com os primeiros lançamentos comprovei que as trutas estavam distribuídas por todos os locais possiveis e imaginários. Assim, mal entro ao primeiro poço com alguma profundidade, levo um bom toque e cravo uma linda truta. Salta 2 ou 3 vezes fora de água e com calma é trazida até à mão. Com cerca de 21 cm é o primeiro exemplar do dia da Ribeira de Gondiães. Escura e com pintas vermelhas é um exemplar verdadeiramente soberbo (foto abaixo).

Depois desta captura, comecei a pescar de forma intensiva cobrindo todos os pontos de água. Mesmo nas correntes mais minusculas existiam trutas e algumas de bom tamanho que se assustavam e fugiam mal a colher tocava na água. A densidade populacional era verdadeiramente espantosa e só por si já me dava uma enorme satisfação. Assim, e naturalmente, as capturas foram-se sucedendo … A maioria das trutas sem tamanho eram rápidamente devolvidas à água. Neste rios de montanha, e em áreas rochosas, as trutas têm tamanhos reduzidos e apenas as mais velhas conseguem ultrapassar a medida legal.

O primeiro troço de cerca de 800 metros apresentava pouca dificuldade e passado uma hora e meia estava na zona mais dificil. Começaram a surgir as gargantas rochosas que obrigavam a alguma escalada. No entanto, para compensar começaram também a surgir poços de maior dimensão e profundidade, logo com bom potencial para albergar bons exemplares. Numa pequena corrente antes de um destes poços, realizo um lançamento à contra corrente, vejo um raio a deslocar-se na água e de repente uma explosão dentro de água com a cana a vergar. Como era possível? Uma linda truta de 23 cm atacou a amostra em menos de 20 cm de profundidade de água. Lutou heróicamente, pôs-me em apuros para chegar-lhe perto, mas lá consegui desenvencilhar-me e trazê-la à mão. Com sombras negras sobre um fundo dourado sapilcado de pintas vermelhas, era um excelente exemplar! Pura beleza 🙂

Depois da captura, avancei para a zona com os poços mais fundos. Num destes poços, de mais dificil acesso, consigo-me colocar a mais de 10 metros de altura e o que vejo na água é inexplicável. Estavam 3 trutas com mais de 23 cm a alimentar-se à mosca, outras três com o mesmo tamanho encostadas à margem e uma truta de 36 cm a patrulhar. Sai o lançamento para a corrente, tudo mexe e crava-se uma truta de 24 cm. Lá lhe dei a luta que podia a 10 metros de altura e quando já estava cansada, icei-a com calma. Mal a tirei do anzol, voltei a minha atenção para as restantes, mas nada. A desconfiança instalou-se naquele aquário de trutas e a de maior tamanho andava a arrastar-se pelo fundo. Ainda fiquei por ali 10 minutos a insistir, mas sem resultado. Que local extraordinário!

Entretanto, fui saindo da zona mais complicada e continuei a tirar as trutas da ordem. Estava-me a aproximar da Ponte que liga o parque de merendas da praia de Gondiães à Ribeira de Lousas. Era já meio dia e aqueles troços eram já mais batidos. Continuei a ver boas trutas, mas já com menos vontade de morder. As ervas já estavam calcadas e por ali já deveriam ter passado alguns dos meus companheiros de pesca. Lentamente, avancei até à ponte e resolvi seguir um pouco mais para montante. Logo no primeiro poço a seguir a ponte, realizo um lançamento da margem esquerda para montante e levo um toque brutal. A truta de bom tamanho arranca com uma força inusitada na direcção de uns ramalhos e não desiste dos seus intentos. Vi-me e desejei-me para a conseguir trazer à mão. Era um excelente exemplar de 25 cm, pescado numa zona onde já tinha passado um dos pescadores do grupo. Mais uma para contar!

No fase final, centrei a minha atenção no açude e poço atrás da praia de Gondiães. A boa profundidade destes locais é garante da existência de boas trutas. E elas lá estavam, mas muito mafiosas. Ainda consegui por uma de 40 cm atrás da amostra, mas virou o nariz à última da hora. Enfim, já não havia muito mais a fazer. Eram 13h30 e subi para me encontrar com os companheiros de pesca.

Na contabilidade, pesquei cerca de 20 trutas (perdi a conta) e só 5 tinham tamanho superior à medida legal. À minha espera tinha uma equipa de cerca de 10 pescadores e igual número de assistentes que nada tinham pescado. Tentados pelas delicias gastronómicas e pelo bom ambiente da praia de Gondiães, rápidamente se renderam ao convivio e aos prazeres de um dia descansado. O que encontrei foram duas mesas cheias de comida, bebida e boa disposição. Afinal, era para isso que tinhamos ido! As trutas eram só mais uma razão para passarmos uns bons momentos. Uma razão muito válida!

Só uma última nota: com a Barragem de Padroselos construída nada disto seria possível. Ainda bem que o mexilhão apareceu para salvar uma das ribeiras mais belas do nosso país. Um local idilico onde muitos aproveitam para vir relaxar e onde vivem algumas das trutas mais bravas do nosso país! Sem este património ficariamos todos mais pobres.

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.