Troféus do Mondego – Parte II

Troféus do Mondego – Parte II


Depois de um final de manhã glorioso no Rio Mondego, que rendeu uma truta de 1 kg e permitiu ver alguns exemplares de bom tamanho, resolvi mudar de local. Quis, desde logo, voltar ao local que ficou fora de alcance durante o inicio da manhã, pois suspeitei da presença de concorrência na zona, devido ao facto de estarem dois carros parados na margem do rio. Se calhar, até não eram pescadores, mas não facilitei 🙂

Porquê voltar a este local, apesar de existirem suspeitas de o mesmo já ter sido batido durante a manhã?

Várias razões entraram na minha decisão, mas as mais racionais foram as seguintes. Trata-se de uma zona com dois poços profundos e com profundidades médias razoáveis, logo as trutas não se assustam à primeira e existe sempre a possibilidade de ter um encontro com trutas de bom tamanho. Os pescadores podiam estar a pescar com isco natural, nomeadamente saltão e minhoca, e portanto, a sua movimentação na margem e acção de pesca não tem que ser sinónimo de espantar trutas. Finalmente, o sol quente do meio dia costuma ser um factor importante na alteração do comportamento das trutas, quer em termos positivos, quer negativos.

Cheguei ao local por volta das 14h00. Não existiam carros nas imediações e estava tudo muito calmo. Peguei no material de light spinning que já vinha da sessão de pesca anterior e toca a atacar a margem direita do Mondego (para evitar “assombrar” as trutas). Ainda considerei a opção de avançar directamente para o poço mais a jusante, e depois pescar para montante, mas achei que não valia a pena. Iria começar logo numa zona com um poço bastante grande e largo que desemboca num bom açude.

Os primeiros lançamentos saíram a cerca de 3 metros da margem, por entre as árvores, a procurar as trutas que estariam nas sombras ou no centro do rio. Nada mexeu. O caudal do rio naquela zona era bastante bom, mas inexplicavelmente não se via nada. Simultaneamente, notei a presença de muitas folhas sobre a água e isso estava dificultar a minha acção de pesca, pois denunciava a presença da linha a milhas. Bastava um toque nas folhas, e as trutas não são estúpidas!! Disso percebem elas!

Fui palmilhando o primeiro poço com muita calma. Cheguei mesmo a avançar ligeiramente para montante, mas rapidamente voltei ao meu percurso para jusante. Não vi truta, nem escalo na primeira meia hora de pesca. Lembrei-me logo que a concorrência já tinha feito todos os estragos na parte da manhã e que nada tinha sobrado para mim. Felizmente, e já muito perto do muro do açude, vi uma boa truta com cerca de 30 centímetros ou mais, a seguir a colher a uma larga distância, mas ficou-se por aí. Senti que estava picada.

Ainda trabalhei o açude e a queda de água com algum cuidado, mas foi mais do mesmo. Nem sinal de truta.

Perante esta situação e com o tempo a passar, achei que não valia a pena perder tempo, pois o petisco em casa do Dr. Manuel Pintalhão estava à espera. Assim, ia atacar directamente o outro grande poço que conhecia. Fiz-me ao caminho e em 15 minutos, cheguei ao muro do açude. Primeiros lançamentos para jusante à procura da zona menos profunda e com areão. Tentei a esquerda, mudei para a direita, mas nada. Que chatice!!

Resolvi entrar numa zona de cotovelo do rio, onde o poço atinge maior profundidade. Ali, já tinha visto muitas trutas e sempre achei que podia ser o local onde algo de muito bom poderia acontecer. Lançamento cruzado para outra margem, nada. Para jusante, nada. Havia sinais de movimento à superfície, mas devia ser escalo. Lançamento para montante, a tentar a outra margem, recuperação calma e nada. Novo lançamento para montante, para uma zona mais encoberta, começo a recuperar …

A amostra vem a meio caminho, recuperação lenta, profundidade de cerca de 2 metros … e a cana dobra toda!! Levanto-a e o carreto começa a cantar brutalidades … o travão a chiar seguido!! Era bicho grande … mas grande mesmo … O que seria??

Cana no ar e resolvi abrir mais ainda o travão. Não podia facilitar com o 0,12 e eu ainda não sabia o que se passava debaixo de água. Só via a linha a mexer rapidamente de um lado para o outro e ouvia o carreto a chiar, enquanto eu dava maniveladas seguidas. Foram dois minutos sem saber o que se passava. Não faltaram corridas para cima e para baixo e cabeçadas seguidas. Fui fazendo o que podia e com calma, senti que o peixe que estava do outro lado, começava a afrouxar. Lá apliquei um pouco mais de força e vi a sombra a emergir à superfície … parecia um submarino. Era uma truta imponente e com uma tez negra impressionante. Parecia um daqueles monstros que nos assombram dia atrás de dia … cada vez que nos dirigimos ao local de pesca.

A adrenalina disparou!! Não podia perder aquele bicho. A colher nº1 estava cravada no topo da boca e a truta começou a enrolar o 0,12 como lhe apetecia. A coisa estava a aquecer. A truta ainda tentou fugir para as raízes e eu vi-me e desejei-me para a impedir. Conseguiu esfregar o nariz nalguns ramos, mas apliquei força máxima para a voltar a por no centro do rio. Era um peixe imponente!! Saquei o camaroeiro e preparei-me para o tudo ou nada!!

A truta continuava com força e eu voltei a afrouxar o carreto. Deixei-a cansar-se até que me começou a dar o flanco. Quando notei que as coisas se estavam a compor para o meu lado, meti o camaroeiro dentro de água e comecei a dirigir a truta para o camaroeiro. Primeira passagem, ao lado. Segunda passagem, ao lado!! Terceira passagem, duas batidas de cauda e salta fora. Que cegueira brutal!!! Quarta passagem, entra de cabeça no camaroeiro, levanto-o, a cabeça entra e rapidamente o ergo. A truta começa a debater-se, agarro-o com as duas mãos, deixo a cana para trás e arranco para fora da margem. Já estava … aquela não se ia embora, nem a tiro!!

A descarga de adrenalina foi total. Fiquei completamente cego de felicidade. É que não há mesmo palavras para descrever a beleza do exemplar e as emoções sentidas durante esta captura. É bom demais para ser verdade 🙂

A truta mediu 55 centímetros para um peso de 1,8 kg. Era uma truta imponente do Mondego capturada numa zona que visito quase todos os anos e que é altamente promissora para a produção de grandes exemplares. O dia estava fechado e com chave de ouro. A pesca terminou de imediato.

Uma visita ao Mondego, dois bons exemplares, um grande troféu capturado … não havia porquê continuar, não só devido aos compromissos que tinha, mas sobretudo porque a partir daquele momento a pesca só poderia piorar. Não havia necessidade. O Rio Mondego (num único dia) provou que continua a ser um lugar mágico para os pescadores de trutas.

É claramente um dos meus lugares favoritos 🙂

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.