Num quintal do Zêzere …

Num quintal do Zêzere …




Já há muito tempo que tinha vontade de visitar o nosso amigo Mota, mas nunca se proporcionou. Desta vez, não podia falhar. No decurso de uma jornada pelo interior do nosso País, resolvi marcar uma pescaria, quase em cima da hora, numa das zonas mais emblemáticas para a pesca à truta em Portugal; o lado este da Serra da Estrela. Já conhecia alguns dos rios da zona como o Zêzere e o Mondego e também já tinha ouvido relatos de capturas de grandes exemplares na zona. Agora só faltava lá passar, seguindo as pegadas de um experiente pescador que conhecesse bem a zona; o nosso amigo Mota.

Quase que nascido nestas lides da pesca à truta, o Mota é um pescador de fina água que conhece muito bem todos os rios, ribeiras e pequenos riachos da zona. O conhecimento destas massas de água é de tal ordem que ele consegue mesmo catalogá-las por tipo de pesca aconselhável, melhores períodos de pesca e tamanho médio de trutas que lá vivem. Muitas destas águas desconhecidas do típico pescador citadino do litoral e nalguns casos albergando populações consideráveis de trutas. Como é óbvio, mal cheguei à Covilhã, a primeira observação do Mota foi no sentido de não divulgar os locais secretos que me ia mostrar. Algo a que imediatamente acedi, pois tratam-se de locais únicos e do conhecimento de muito poucos. A ideia é claramente preservar estes pequenos oásis dos “mata-tudos” que por aí andam. A paga por preservar esse segredo foi que o Mota tinha-me que me levar a um local com trutas grandes.

Depois de chegar à Covilhã por volta das 10h30, arrancamos para o rio. Íamos bater uma zona espectacular, mas o dia não era certamente o melhor, pois o dia estava bastante claro e a temperatura andava na ordem dos 20 e poucos graus. Fiquei verdadeiramente entusiasmado com aquilo que vi. O troço no qual entramos tinha todas as características para possuir grandes exemplares. Poços generosos, correntes fundas e imensa cobertura vegetal nas margens a condicionar a movimentação dos pescadores. Tudo isto apimentado com as histórias das últimas grandes pescarias do Mota e com a fuga de exemplares que chegariam aos cinco kilos!!

Bem, entramos ao rio por volta das 11h30 e iríamos pescar até às 14h30. Depois seria hora do almoço e voltaríamos ao ataque mais tarde para finalizar a jornada. Eu preparei um material de spinning normal, com 0,18 e um rapala X-Rap de 6 centímetros. A minha ideia era tentar só os grandes exemplares. Por sua vez, o Mota estava com 0,16 e com uma colher Mepps Aglia nº2. Claramente uma aposta mais todo o terreno.

Começamos a pescar numa zona de corrente que desembocava num poço. Ele, com as botas altas, conseguiu alcançar uma zona mais à frente e eu fiquei-me pela margem. Logo num lançamento encostado à minha margem, vejo a primeira truta de cerca de 21 centímetros a vir atrás do rapala e a tentar mordê-lo. Não cravou. Depois consegui passar para uma grande linha de areia a meio da corrente e comecei a lançar para a corrente. Sem resultado. Vi uma ou outra movimentação pontual, mas as pequenas trutas que vi não queriam rapala. Entretanto, o Mota já tinha tirado duas trutas pequenas à colher, que foram rapidamente devolvidas à água.

Depois de batermos com calma este poço, resolvemos avançar para o seguinte. Eu mantive o rapala e o Mota manteve a colher. Mais uma vez, a aposta dele foi correcta. Num canto por detrás de uma árvore tombada e depois de eu ter lançado mais à frente, o Mota consegue capturar uma linda truta do Zêzere. Um excelente exemplar com umas cores belíssimas e a medir cerca de 36 centímetros. Segundo ele, uma truta pequena para aquele local, mas para mim pareceu-me um excelente peixe.

Mota com uma truta de 36 cm

Depois desta captura, animamos para a ponta final da jornada. Perante o insucesso do rapala, vi-me forçado a mudar, meti uma Mepps Aglia nº2 e o resultados não tardaram a se fazer sentir. Numa zona de corrente mais profunda, tenho o meu primeiro toque e tiro uma truta de cerca de 18 centímetros. Um lindo exemplar que rapidamente devolvi à água.

Entretanto, o Mota avançou para a parte central do rio e resolveu fazer uma sequência de correntes. Eu pus-me em cima do açude a observar o desempenho dele. Espectacular. Em menos de 15 minutos, tirou cerca de 12 trutas ao spinning na corrente. Todas elas pequenas, mas sempre a saírem. Fiquei deveras impressionado com esta performance, especialmente porque isto significa uma coisa: uma excelente densidade de trutas que vai certamente constituir uma importante reserva estratégica para o futuro.

Depois desta corrente, ainda fizemos um pouco mais de rio para montante, mas a situação não se alterou. O Mota continuou a tirar mais trutas pequenas, eu andei a trocar de isco continuamente sem grandes resultados e não se viram grandes troféus. Estava a chegar à hora do almoço e o apetite já era mais que muito. Íamos comer e depos voltaríamos à faina.

No global, este primeiro troço foi uma boa surpresa, sobretudo pelo potencial que o mesmo apresenta para o desenvolvimento de bons exemplares. Não vimos nenhum monstro, mas a boa dimensão da truta capturada e a configuração de alguns poços e correntes não me deixa qualquer margem de dúvida. Agora só falta acertar no dia correcto para visitar este local, e claro, dar uma ligadela ao Mota! Porque sem ele, não vale a pena!

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.