Polémica dos repovoamentos de trutas em Montesinho

Polémica dos repovoamentos de trutas em Montesinho


Como sempre, nestas coisas, “vira o disco e toca o mesmo!” e portanto a polémica mantém-se.

Já todos os pescadores de trutas perceberam que a política nacional de repovoamento de trutas sofreu uma forte pancada nos últimos anos. Muitos viveiros foram desactivados e muita gente que tinha empregos directos ou indirectos relacionados com esta actividade foi despedida. Houve um total abandono da função do estado a este nível, que de certa forma reflecte também o abandono em termos de fiscalização, regulação e modernização das actividades relacionadas com a pesca desportiva das trutas. Isto levou à criação de uma série de vazios que têm vindo a ser preenchidos de forma completamente desordenada por várias entidades, incluindo as entidades gestoras de parques nacionais, como acontece no Parque Nacional de Montesinho.

Truta 27cm Tuela

Olhando ao actual panorama da gestão piscícola realizada nos parques, verificamos que a mesma está sobretudo subjugada por interesses ambientais que se sobrepõe de forma fundamentalista a todos os restantes, procurando basicamente afastar todo o tipo de actividade humana e promover a total desertificação do interior. Isto porque os ambientalistas que trabalham na gestão dos parques sinceramente acreditam que o parque deve ser um habitat experimental onde se procura replicar cenários pré-existência do homem.

Para tal, tentam proibir toda a actividade humana com reflexo sobre o ambiente, ou não podendo totalmente proibir, criam burocracia e “taxas e taxinhas” para infernizar a tal ponto a vida de quem habita nestas áreas, levando ao total abandono de campos e florestas primeiro, e depois de casas. Exemplos não faltam deste tipo de pressão nos media e as consequências já começam a ser catastróficas de um ponto de vista de coesão territorial e económica. Só não vê quem não quer.

Portanto, não é de estranhar que a nível do repovoamento de trutas essa polémica se tenha acentuado nos últimos anos e que volte mais uma vez à baila, desta vez no parque nacional de Montesinho. Para terem uma ideia do actual ponto da situação, podem ler artigo abaixo do Jornal do Nordeste que retrata bem a situação actual:


Como sempre, os interesses dos pescadores não são coincidentes com os dos ambientalistas. Até aí nada de novo. Se ainda existisse uma posição negocial equivalente ou a intervenção de uma autoridade externa com poder superior, era possível pensar numa solução de compromisso, no entanto, com a total desordenação do sector, quem manda é o lado mais forte, ou seja os ambientalistas. Portanto, a solução a implementar passa pelo total abandono do repovoamento e das infra-estruturas que lhe servem de apoio.

Percebendo a posição das entidades gestoras do parque e concordando na essência com alguns dos argumentos apresentados, nomeadamente no que diz respeito a doenças e a alterações súbitas de equilíbrios ecológicos, penso que a não existência de viveiros e repovoamentos não faz qualquer sentido, a não ser que se queira eliminar totalmente a pesca desportiva das trutas nos parques. O principal problema da análise realizada pelas entidades gestoras dos parques é que não consideram a pesca desportiva nos seus modelos de gestão de habitats e como tal, acham que a população está sempre equilíbrio, mesmo quando já não há quase trutas nenhumas nos rios. A não ser que se proíba totalmente a pesca nestas áreas, os pescadores fazendo a sua actividade normal num rio acabam por ter sempre impacto na redução de efectivos, mesmo na pesca sem morte, e as reduções podem ser relativamente relevantes em áreas específicas.

Portanto, neste tipo de situação, faz sempre sentido ter disponível a técnica do repovoamento numa lógica de gestão corrente. Agora, o que também me parece claro é que temos que abandonar o antigo paradigma de viveiros. Os viveiros têm que evoluir de simples áreas em que se reproduziam trutas em massa de uma única procedência genética para depois serem espalhadas por todo o território de uma região. Isto já para não falar de situações em que o material genético era importado da Europa Central e trazia imensas doenças que nem existiam em território nacional. Para além da poluição que a criação em massa de trutas gerava em determinados cursos de água, tínhamos também uma total alteração de habitats com a introdução de espécies, que nalguns casos, eliminavam as indígenas, ou por via directa ou através da propagação de doenças.

Olhando ao que é realizado noutros países muito mais desenvolvidos nestas lides, penso que faz sentido repovoar e utilizar viveiros para tal em todas as massas de água deste país, dentro e fora de parques. No entanto, a lógica deve ser de criar viveiros com valências para gerir várias estirpes diferentes em termos genéticos permitindo assim servir directamente 6 ou 7 massas de água numa determinada área. Assim, cada linha de água teria um espaço exclusivo alocado para desova e crescimento de exemplares dentro do viveiro com material genético recolhido nessa mesma linha, evitando a hibridação. Adicionalmente, a dimensão do viveiro deve ser tal que não aumente a poluição da linha de água em que se encontra e deve obedecer a densidades de trutas nos tanques muito inferiores às que actualmente existem, permitindo um desenvolvimento mais equilibrado do comportamento das trutas. O viveiro também deve utilizar as técnicas mais modernas no controlo de doenças e na gestão da alimentação das trutas, que não deve ficar pela simples ração, promovendo já uma adaptação às massas de água onde elas vão ser depositadas.

Com este tipo de modelo de viveiro e com uma visão mais sustentável da pesca dentro dos parques, penso que é possível simultaneamente satisfazer o interesse dos pescadores e dos ambientalistas. Agora isto obriga a financiamentos específicos para a criação de novos viveiros ou a reconversão dos existentes que dependem essencialmente de vontade política. Fundos não vão faltar até 2020 e portanto agora é só uma questão de ver se querem e se vale a pena fazer algo por este tipo de problemática ou se em vez disso vamos continuar todos de costas voltadas: uns a proibir, os outros a abandonar e finalmente quem gere isto tudo, a “falar para encher pneus”.

Related Posts with Thumbnails




Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.