Mais uma polémica com repovoamentos …

Mais uma polémica com repovoamentos …


Apesar de esta notícia já ser do final de Julho deste ano, a sua relevância é bastante pertinente, especialmente porque retrata a total confusão que é a actual política de repovoamento do ICNF, quer dentro, quer fora dos parques nacionais. Infelizmente, em vez de se adoptar uma política única que permita apenas e obrigatoriamente os repovoamentos com trutas provenientes de exemplares genéticos puros de cada massa/curso de água, parece que se anda a aplicar unicamente essa perspectiva nos parques nacionais, sendo consideradas as outras zonas como locais de segunda, onde se pode despejar qualquer tipo de trutas.

Repovoamento Trutas

Aliás, a notícia abaixo retrata a dimensão deste problema no caso da Barragem da Serra Serrada e a forma como o mesmo foi encarado pelos pescadores da zona em Julho deste ano:


Neste contexto, compreende-se alguma da frustração dos pescadores afectados por este tipo de medidas. Acredito que a falta de uma visão única gera problemas de discriminação negativa, que em nada abonam a favor de um estado democrático.

No entanto, nem tudo aquilo que vem da boca dos pescadores me parece correcto. A questão da pureza genética é um problema deveras importante e tem que ser claramente assumido como uma prioridade absoluta para a política de repovoamentos de trutas a realizar no nosso País. A grande maioria das doenças que hoje atacam as populações de trutas dos nossos rios provém efectivamente de repovoamentos ou largadas realizadas com trutas de viveiro não indígenas. Estes exemplares criados em viveiros e largados num troço pequeno apenas para proporcionar algumas horas de entretenimento a alguns pescadores que pagam para isso, acabam por causar um enorme impacto ambiental em toda a área de várias massas/cursos de água. Obviamente, que os efeitos deste tipo de práticas não se vêem num ano ou em dois, mas apenas no longo prazo. Assim, não é de estranhar que nalguns locais e após décadas de repovoamentos mal concebidos, uma parte significativa da perda de densidade de trutas possa ser explicada por este tipo de políticas.

Agora, se me perguntarem; Se estamos preparados para aplicar uma política única nacional de repovoamento baseada na pureza genética? A resposta é não!! Os últimos anos foram passados a abandonar viveiros de trutas do Estado e a despedir técnicos qualificados. Neste momento, temos muitos poucos viveiros a funcionar e com uma capacidade instalada muito inferior às necessidades nacionais. Com isto, criou-se um défice estrutural para responder a esta nova solicitação. Portanto, e sem uma visão integrada deste tipo de questões que nasça de alguém competente no Ministério da Agricultura, é mais que natural que nos próximos anos, tenhamos que aturar os improvisos do ICNF que vai continuar a tentar “fazer omoletes sem ovos”!!

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.