Um relatório oficial de uma sessão de repovoamento…

Um relatório oficial de uma sessão de repovoamento…




Durante uma recente pesquisa pela Internet, deparei-me com um pedaço de história que retrata bem a forma como é realizada a gestão da pesca desportiva e dos nossos rios. Apesar do documento em causa ser de 2011, está bastante actual e deve merecer a nossa melhor atenção. O que ele representa é o total caos e abandono a que o nosso património fluvial e as nossas trutas tem sido sujeitas nos últimos anos. Apenas a iniciativa de uma meia dúzia de artistas, que com muito voluntarismo, tem permitido que se faça alguma coisa pela sua sustentabilidade.

Repovoamento Trutas

Numa primeira leitura, o documento impressionou-me sobretudo pela forma de escrita honesta e simples. Nada foi omitido e parece claramente que o relator se envolveu directamente e de forma intensa com a situação reportada. Até aqui nada de extraordinário. Aliás, o documento até é de fácil leitura e nalgumas partes até poderia ser considerada como cómico, não fosse o assunto abordado sério demais para isso. No entanto, antes de tecer comentários, o melhor mesmo é ler o documento que segue abaixo:


Desde logo, este relatório relativo a uma sessão de repovoamento é um instrumento importante para compreendermos que as autoridades responsáveis pela pesca desportiva em águas interiores em Portugal estão em total estado de letargia e que temos que começar a pensar numa nova forma de ordenamento. Tanto assim é que quem desencadeia as acções de repovoamento são pessoas com algum peso político e que com base no arbítrio individual consideram que uma acção de repovoamento é necessária. Estudo prévio e visão integrada e estratégica para o Côa nos próximos 10 a 20 anos?? Não! Nada disso. Há um pedido pontual, tipo conversa, …. se calhar até é gente da nossa cor política ou por quem temos simpatia … então vamos lá por umas trutas no rio!!! Surreal e terceiro mundista, mas é a nossa realidade.

No fundo, não temos qualquer gestão da pesca desportiva em águas interiores, nem iremos ter enquanto não tirarmos essa competência ao ICNF. Está provado que esta instituição não tem capacidade para gerir estas questões com a agilidade, a visão estratégica e integradora e com o conhecimento local que elas merecem. Tem sido assim há décadas e os resultados têm vindo a ser cada vez piores. A nossa população de trutas continua a diminuir, os custo de licenciamento das concessões são ridículos, os repovoamentos não têm qualquer controlo de qualidade, o furtivismo continua a aumentar, etc. Enfim, não faltam razões para ver que nada está a ser feito com os nossos impostos e com as receitas das nossas licenças. Apenas pagamos e nada recebemos!! Então, porquê pagar??

Voltando ao documento, um outro aspecto que também me faz impressão é a transformação de uma acção que deveria ser de conservação e restauro de património ambiental num acto político. Efectivamente, esta é uma prática que todos nós conhecemos e que muitas vezes desvirtua o intuito e os objectivos de uma acção de repovoamento. A convocatória dos media serve apenas dois objectivos: a projecção de uma imagem do ICNF como sendo uma entidade que verdadeiramente se preocupa com a gestão da pesca desportiva em Portugal e a publicitação do trabalho político de quem gere as juntas de freguesia ou as câmaras municipais. Esta é infelizmente a realidade do nosso país. O que interessa é a imagem e mostrar que se pode fazer, quando na realidade e no dia à dia, não se faz nada. Como lhe chamavam os antigos: “fogo de vista” para enganar os tolos.

No meio de tudo isto, a minha questão é a seguinte: em que se saldou esta acção de repovoamento e que tipo de trutas é que foram introduzidas no Côa? Penso que a resposta já todos sabemos e isto nada mais foi do que uma pedrada no charco para servir interesses políticos e promover imagem. No fundo, a única coisa que se aproveita ainda é este relato caricato do que se passou. O resto será certamente para esquecer. Venham mais eleições … e mais golpes publicitários que é disso que este país precisa.

É pena é não conseguirmos enganar as Troikas e a Alemanha com estes esquemas. Vontade não falta, mas aí já não há margem para brincadeiras!

Também tenho pena é de não termos uma Troika no sector da pesca desportiva! Isso é que era preciso!! Faz falta como o pão para a boca!!

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.