Os incêndios e as trutas.

Os incêndios e as trutas.

Durante os meses de Verão, e sobretudo no mês de Agosto, deparamos com o flagelo dos incêndios em Portugal Continental. Este é um problema sério que nos afecta ano após ano e que para além de prejuizos materiais avultados, traz também algumas perdas de vidas humanas. É portanto de louvar o  esforço e investimento público e privado que é realizado ao nível da prevenção e  do combate a este fenómeno.

Relativamente ao impacto dos incêndios sobre as populações de trutas, o que se sabe é que esse impacto é altamente negativo e pode chegar quase a eliminar esta espécie de um determinado curso de água. O impacto mais forte não ocorre de forma imediata, ou seja no momento do incêndio, mas sim quando surgem as primeiras chuvadas sobre a area ardida. Nos primeiros momentos após o incêndio, as trutas sofrem uma forte redução de alimento e nalguns casos de caudal, quando a água do próprio local é utilizada para ajudar a combater o fogo. A situação, apesar de complicada para a sobrevivência das trutas, ainda é minimamente sustentável. As coisas só se tornam verdadeiramente dramáticas quando surgem as primeiras chuvas fortes. Estas chuvas provocam uma forte lixiviação do solo e tudo o que são cinzas e outros destroços dos incêndios são rápidamente transportados para as linhas de água. É nesta altura que surgem os grandes problemas com a morte maciça e em série de muitas trutas ao longo do caudal. Na maior parte destas situações, os efeitos até não são visiveis, porque as fortes chuvadas limpam rápidamente os cadaveres para jusante.

Quando as lamas dos incêndios entram nos rios e assentam no leito, reduzem imediatamente o potencial ecológico do sistema aquático. Se as cinzas funcionam como uma capa que reduz a oxigenação da água e a capacidade de desenvolvimento da vida aquática, então os produtos quimicos que são utilizados no combate aos incêndios pelos aviões e helicopteros matam rápidamente a grande maioria dos organismos vivos. Os produtos quimicos retardadores do avanço das chamas são altamente eficazes no combate aos incêndios, mas também são extremamente nocivos para a vida aquática. As trutas pela sua delicadeza são os primeiros peixes a ser vitimas deste tipo de quimicos, mal eles são transportados para os rios pelas primeiras chuvas. E o resultado final é sempre devastador … Rios como o Alva sofreram um grande impacto há alguns anos e ainda não recuperaram minimamente. Em determinadas zonas do Alva, o número de trutas diminuiu dramaticamente e ainda se notam fortes vestigios de lamas com forte teor de cinza nas margens.

Perante isto, penso que se impõe a realização de um estudo sério sobre o efeito dos incêndios sobre as populações de trutas. A simples politica de braços cruzados só leva a mais rios poluidos e sem possibilidade de recuperação para a pesca às trutas. Não é isso que queremos. Temos sempre entre 2 a 3 meses desde a época de incêndios até à época das chuvas para se fazer algo e nada é feito. Nem há qualquer tipo de preocupação nesse sentido. Depois do rescaldo, está tudo resolvido … Não pode ser!

Penso que neste momento, já dispomos de informação suficiente para pelo menos pensar em criar novas alternativas aos produtos quimicos utilizados no combate aos incêndios. Ou pelo menos, alguma forma de “a posteriori” reduzir o seu impacto sobre a qualidade das águas. Já no caso da cinzas, penso que também se lhe deveria dedicar alguma atenção, tentando encontrar soluções que permitam a sua diluição ou retenção em determinadas zonas, criando condições para que depois elas sejam canalizadas para os cursos de água de forma menos intensa.

No final do dia, tem que haver vontade politica para que se tomem medidas sérias, pois a poluição das águas também tem consequências prejudiciais ao nivel da saúde pública. As trutas são um património valioso e funcionam como indicador claro da qualidade da água e do mundo que estamos a construir … ou a destruir 🙁

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.