Os repovoamentos de trutas em Portugal.

Os repovoamentos de trutas em Portugal.

Os repovoamentos têm sido usados nas últimas décadas para repor populações de salmonideos em decadência. Portugal, não fugindo à regra, tem feito um uso intensivo desta técnica em várias massas de água e sobretudo nos rios truteiros. Segundo os registos contabilizados no site da Autoridade Florestal Nacional, os primeiros repovoamentos ocorreram no final do século XIX e desde então têm-se tornado prática corrente.

Click aqui para um melhor conhecimento sobre todos os repovoamentos realizados entre 1898 e 2003.

Como técnica de optimização do potencial truteiro de uma massa de água, o repovoamento é susceptivel de gerar muita polémica. Os defensores acérrimos acreditam que sem repovoamentos já há muito que não existiriam trutas nas nossas massas de água. Por sua vez, os cépticos consideram que esta é uma técnica infrutifera e que na maioria das situações traz mais impactos negativos do que positivos. Dentre os aspectos negativos mais frequentemente mencionados, surgem: a canibalização das trutas índigenas, a redução de alimentação para todos os exemplares, a hibridação genética, a transmissão de doenças, etc.

O que nos parece é que a verdade estará algures no meio. O repovoamento continua a ser uma técnica válida para repor stocks em circunstâncias bastante especificas, mas que tem que ser alvo de monitorização e aperfeiçoamento constante. Para tal, é necessário conhecer melhor o impacto das acções de repovoamento sobre as populações de trutas comuns em Portugal. A este nível existe um estudo realizado pela Universidade de Trás os Montes e Alto Douro UTAD) que está disponivel para consulta livre. Este estudo analisa o impacto das acções de repovoamento sobre os rios do Nordeste Transmontano, localizados na bacia hidrográfica do Douro (Baceiro, Sabor e Tuela), no período compreendido entre 2000 e 2002.

Click aqui para consultar os resultados do estudo na íntegra.

No global, fica-nos a impressão de que o repovoamento é uma técnica que comporta riscos. Numa primeira fase, nem todos os casos de diminuição da população truteira têm que ser imediatamente razão para aplicar um repovoamento. Muitas vezes, convém perceber as causas da regressão na população e atacar a fonte do problemas, como por exemplo: eliminar poluição ou reduzir temporada e pressão piscatória. Só se a população não tiver capacidade para se regenerar rápidamente é que faz sentido pensar em avançar com esta técnica. 

Posteriormente, e caso se decida avançar com um repovoamento, o seu uso deve ser optimizado no sentido de permitir a manutenção do património genético das nossas trutas, ou seja cada curso de água deve ser repovoado unicamente com alevins provenientes de espécimes reprodutores desse mesmo rio. Também consideramos que cada acção de repovoamento deve ser planeada ao milimetro, tendo em conta aspectos como: densidade de trutas indigenas, disponibilidade de alimento, pressão piscatória, predadores, etc. Aqui a nossa opinião vai no sentido de que “cada caso é um caso” e portanto é preciso conhecer bem as caracteristicas de uma massa de água, antes de intervir. Posteriormente, todo o repovoamento deve também ser alvo de uma avaliação periódica regular para analisar os seus impactos. Raramente se acerta à primeira e como tal é necessário realizar ajustamentos para ir controlando a forma como as trutas se vão adaptando a estas intervenções externas. Todos estes passos são importantes para ir construindo ao longo do tempo uma técnica cada vez mais apurada e mais eficaz.

Sem conhecimentos, planeamento e monitorização, esta técnica é utilizada “ad-hoc” e como tal pode ser extremamente perigosa para as populações indigenas e selvagens de trutas comuns. Penso que no momento actual não nos podemos dar ao luxo de cometer grandes erros!

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.