Recordes no repovoamento de trutas!!

Recordes no repovoamento de trutas!!


Portugal é normalmente conhecido por ser um país de grandes fenómenos e onde várias vezes ao ano se quebram recordes do Guinness. A maior parte desse recordes roçam sempre o limite da estupidez e nalguns casos apenas atestam que algo vai mal num povo que se procura exibir a todo custo lá fora, quando em casa vive de misérias. Enfim, temas para mais uns faditos e uns copos que nos levam a todos lentamente até ao nosso destino final numa alegre tristeza.

Como não podia deixar de ser também no domínio da pesca à truta se tentam quebrar recordes. Neste caso concreto, a situação de que vos falo refere-se a um recorde de repovoamento de trutas realizado este ano em Junho passado no Rio Paiva. Foram libertadas 70 mil trutas no Paiva!! Normalmente, estamos habituados a repovoamentos de 1000 a 4000 trutas, e já são repovoamentos com grande impacto, especialmente quando realizados em barragens ou determinados troços de rios. Agora 70000 trutas é um outro patamar de intervenção ambiental. Independentemente do tamanho médio das trutas, 70 mil trutas é muita truta para qualquer rio e certamente uma acção deste tipo terá efeitos bastantes significativos em termos do equilíbrio ecológico do sistema fluvial do Paiva nas zonas intervencionadas.

O que se passou efectivamente, aparece reportado no blog (Tempo Caminhado) abaixo:


Perante esta acção, que eu considero um recorde para as nossas águas, ocorrem-me várias questões.

Desde logo, a primeira tem a ver com a proveniência das trutas. Sei que vieram do viveiro do Caramulo, mas qual foi o património genético utilizado? São trutas do Paiva ou do Alfusqueiro ou de outro rio qualquer?

Depois ocorre-me a seguinte questão: foi realizado algum estudo prévio a esta intervenção ou foi tudo realizado em cima do joelho, apenas para dinamizar o 1º festival da truta de Castelo de Paiva? Como é costume nos repovoamentos em Portugal, normalmente metem-se umas trutitas nos rios para ter motivo para conviver com os amigos. Aqui parece-me claramente a mesma coisa, mas a uma escala mais elevada.

Finalmente, pergunto-me se será feito algum acompanhamento científico das áreas intervencionadas ou se apenas se deitaram para lá umas trutas para ver no que dá para o ano? Criou-se uma zona de protecção? Existem limitações à pesca? Existe obrigação de declaração de exemplares pescados ou entregas de anilhas nos peixes que estejam marcados?

Repovoamento Trutas

No global, pelos depoimentos que fui recolhendo de várias fontes, isto parece-me mais do mesmo, mas a uma escala desmesurada que testa os limites da mente humana e a compreensão dos verdadeiros pescadores de trutas. Já há muito tempo que sabemos que o Paiva tem uma situação lastimável em termos de densidade de trutas. Aliás, nos últimos anos a decadência tem sido total, por várias razões, entre as quais ocupam lugar de topo, a poluição e o furtivismo. Agora também me parece que o remédio pode ser pior do que a doença, especialmente para as poucas trutas selvagens que ainda subsistiam na zona mais a montante e que serão os últimos baluartes do património genético do Paiva.

Acho que as acções de repovoamento não podem ser realizadas ad-hoc e por solicitação de entidades públicas que querem organizar convívios e festivais. Está na altura de tratar estes assuntos com a seriedade que eles merecem (“à mulher de César não basta ser séria, também tem que parecer séria”). Repovoamentos deste tipo, sem qualquer tipo de visão estratégica, podem ser autênticas operações de destruição de biodiversidade e aquilo que pode parecer uma bonança de trutas no curto prazo, pode levar a uma decadência inevitável no médio e longo prazo. A ilusão é clara e está na altura de parar com o amadorismo na gestão dos repovoamentos e da biodiversidade nas massas de água.

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Informação sobre o autor

Pescador de trutas desde os 18 anos. Tem uma forte dedicação ao spinning com colher e peixes artificiais, tendo pescado em Portugal, Espanha e no Reino Unido. Actualmente, pesca sobretudo na zona do Minho, Gerês e Centro do país.